Caso das Fragatas: Como o 24 HORAS fabricou uma polémica

Caso das Fragatas: Como o 24 HORAS fabricou uma polémica
Avatar de João Reis Alves

O 24 HORAS tinha duas hipóteses no caso das Fragatas: ou procurava outro ângulo – como saber se serão úteis ou o porquê do custo superior àquele pago pela Itália em 2024 – ou fabricava uma polémica para enganar quem apenas lê o título. Decidiu-se pela segunda, para derrota do jornalismo.

Depois dos submarinos, agora é o Caso das Fragatas que dá que falar no âmbito das grandes aquisições militares portuguesas. Mas enquanto um teve investigação criminal, foi a tribunal e até levou a condenações na Alemanha, sendo um dos mais polémicos da democracia portuguesa, o outro é um negócio que envolve a Marinha… e acabam aí as semelhanças.

Vamos analisar a notícia que saiu, com pompa e circunstância, no renascido 24 HORAS, a 7 de agosto. O título escolhido prometia: “Três fragatas por 3,9 mil milhões: o negócio já levanta dúvidas”. Que dúvidas seriam? Concursos à medida de uma determinada empresa? Valores injustificados? Não, a grande dúvida foi um intermediário que ficou aborrecido por ficar fora do negócio e sem os 90 milhões de euros que poderia encaixar.

Aliás, a notícia falha um princípio básico do jornalismo: esclarecer. Praticamente todos os parágrafos têm o autor, o inefável ex-diretor do Tal & Qual Manuel Catarino, a fazer perguntas para as quais não tem respostas. Ou seja, em vez de esclarecer o leitor, prefere que a sua falta de respostas dê sumo a uma notícia de pouco valor.

O Caso das Fragatas explicado

O que se passou, afinal, no afamado Caso das Fragatas? Portugal fechou um negócio com a Itália para compra de três fragatas FREMM EVO da fabricante Ficantieri, que ultrapassaram a concorrência francesa, espanhola e neerlandesa. O preço: 3,9 mil milhões de euros, coberto pelo empréstimo que o país recebeu no âmbito do Instrumento de Ação para a Segurança da Europa (SAFE).

Este mecanismo, supervisionado pela Europa e com objetivos que precisam de ser atingidos e resultados que terão de ser divulgados, não necessita de serviços de intermediação, de forma a reduzir custos, Por isso, a empresa NTG – que faz a intermediação entre Portugal e a Ficantieri – não tinha de intervir neste negócio.

Qual é a história aqui? Boa pergunta. Mas aquele que até podia ser um tema relevante acaba a ser uma mão cheia de nada. Ser jornalista de investigação envolve questionar, esperar pelas respostas e conseguir provas que apontem para a notícia que é dada. Nada disso foi esclarecido pela publicação.

O 24 HORAS tinha duas hipóteses: ou procurava outro ângulo – como saber se as fragatas serão úteis ou o porquê do custo superior àquele pago pela Itália em 2024 (como fez o Expresso) – ou fabricava uma polémica para enganar quem apenas lê o título. Decidiu-se pela segunda, para derrota do jornalismo.

A atribulada gestão do caso pelo ministro Nuno Melo

Não coloco esta notícia, apesar de questionável, como um caso de má-fé. É pouco informativo, sem conteúdo relevante e com um título sensacionalista para tamanha falta de factos. Porém, ela existe por uma razão muito simples: o silêncio do Ministério da Defesa.

O ministro Nuno Melo, sempre tão indignado quando o colocam em causa, falhou um factor essencial para a relação com o jornalistas e gestão de temas sensíveis: ser transparente.

Como no Forte de São Julião da Barra nada se explicou, abriu-se as portas para a especulação e para se tirar certas conclusões, sejam acertadas ou não. Não custava muito, decerto, ao Ministério explicar porque não houve intermediário neste negócio, nem a discrepância entre o valor das fragatas de há dois anos para cá ou onde será aplicado o valor extra-navios, a rondar os 900 milhões de euros para material de guerra.

Do silêncio, Nuno Melo permitiu que a suspeita surgisse… e acabou por ter um caso prejudicial (e desnecessário) nas mãos.