Obsessão com o “André Ventura nunca perde”

André Ventura, candidato às eleições presidenciais de 2026

É um daqueles mitos que tem enchido páginas de jornais e horas de emissão na televisão, especialmente depois de terminada a primeira volta das eleições presidenciais: um discurso de “isto é muita bom para o André Ventura”. Aquela ideia de que, seja o que for, vai sempre acabar por ser benéfico para o segundo classificado na eleição de domingo.

Esta obsessão vem de vários quadrantes, mas é especialmente amplificada por comentadores, que redundam tudo em benefícios para o “intocável” Ventura, como se fosse possível alguém ser assim tão à prova de bala.

Ora vejamos: no domingo à noite ouviu-se logo dizer que “Seguro era o melhor adversário que Ventura podia pedir”. Um absurdo evidente. Como é óbvio, Marques Mendes seria um opositor mais acessível – até porque já tinha mostrado os telhados de vidro – tal como o cinzento Gouveia e Melo. Mas como a segunda volta será Seguro vs Ventura, claro que a noite de domingo correu às mil maravilhas para o líder partidário.

Enquanto se anda a desnivelar a realidade a favor do senhor do Chega, surge um outro histerismo em massa: tudo são obstáculos para António José Seguro.

Outra que se ouve por aí: Ventura é o “líder da direita”. Ora, numa eleição em que foi o único líder partidário a participar, é um bocado difícil tirar esta conclusão. Mas lá se leva a demagogia de Ventura como se fosse um facto.

Este é outro dos problemas: levar a sério tudo o que o presidente do Chega diz, como se a realidade fosse ditada por ele e não pela, claro está, realidade. No caso, dizer que é o candidato contra o socialismo não é verdade. Se fosse esse bastião anti-PS, como é possível o partido dele, com o seu acenar de cabeça, aprovar medidas ao lado dos socialistas? Que se saiba, não foi um movimento “anti-socialista” que fez aprovar o fim das portagens nas ex-SCUT, por exemplo.

Enquanto se anda a desnivelar a realidade a favor do senhor do Chega, surge um outro histerismo em massa: tudo são obstáculos para António José Seguro. Mesmo ganhando a primeira volta com algum destaque, eis que se tenta transformar tudo em problemas. Tem apoios de figuras públicas? É mau para Seguro e bom para Ventura. Montenegro não lhe declara apoio? É mau para Seguro e bom para Ventura. Está a chover e só o ex-líder do PS tem guarda-chuva? É mau para Seguro e bom para Ventura.

Numa eleição em que foi o único chefe partidário a participar, é um bocado difícil concluir que se é o líder da direita. Mas lá se leva a demagogia de Ventura como se fosse um facto.

Perde-se um tempo interminável com assuntos supérfulos e que têm zero impacto no futuro do país. Vai tudo atrás do soundbite, aquela citação absurda para meter no título de uma notícia e conseguir os tão preciosos cliques. Pelo meio, lá se vão todos esquecendo do básico, como uma simples pergunta: onde é que querem ver Portugal daqui a cinco anos? Outra: qual vai ser a posição do país em relação à volatilidade dos Estados Unidos?

Há que saber ignorar a demagogia, as frases feitas básicas e os discursos mirabolantes. Não interessa para nada se esta foi uma derrota do PS – algo patético, estando o ex-líder do partido à frente – ou do Partido da Terra. O que importa é saber o que vai fazer quem for o próximo inquilino do Palácio de Belém. Só isso importa.

Querem um SNS a funcionar? Boa!
Como vão fazer isso através dos poderes do Presidente da República? Esta questão parece que já não interessa.

Se ninguém esclarecer o eleitor, não se queixem que ele decida votar em soluções vazias, apetrechadas de bichos-papões e sem qualquer consistência política.

Mesmo a tirada repetida constantemente de acabar com “50 anos de sistema”, como se não tivesse havido espaço para independentes nem houvesse bons governantes em Portugal, é um absoluto disparate. Não era melhor perguntar a Ventura o porquê de ter suplicado tanto para fazer parte de um governo que, supostamente, representa esse “sistema”?

O que quer isso dizer, sequer? Acabar com o sistema? Qual? A democracia? O semipresidencialismo? E acabar como? Com uma nova constituição? Proibindo os partidos de esquerda? Ou é dando cargos públicos a pessoas do Chega? Respostas que nunca chegaram, nem nunca chegarão se ninguém “ousar” em fazer as perguntas que interessam.

Não vale a pena encostar à parede a lacrimejar e a queixarem-se que o André Ventura teve muitos votos. O foco tem de ser a pedagogia, ensinar aos eleitores para que serve um chefe de Estado, quais os seus limites de intervenção e quais os seus poderes únicos. Depois, é perguntar aos candidatos como vão usar essas ferramentas.

Se ninguém esclarecer o eleitor, não se queixem que ele decida votar em soluções vazias, apetrechadas de bichos-papões e sem qualquer consistência política.

Vir dizer para a praça pública que a vida corre sempre bem a um dos candidatos, também não ajuda ao duelo político desta segunda volta.

Se o bom senso voltar, pode ser que os resultados das eleições deixem de fazer implodir a cabeça de muito intelectual.

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