O périplo começa em Paço d’Arcos, nos estúdios da SIC Notícias. Dali passa pelos arredores do estádio da Luz. Um dia na CMTV, outro no Now. A fechar ainda vai a Queluz, à CNN Portugal.
André Ventura é presença assídua nos canais de notícias, com séries atrás de séries de entrevistas “exclusivas”, separadas por um par de dias, às vezes nem isso. Na televisão nacional, não há líder de partido que tenha o tempo de antena do presidente do Chega.
André Ventura e a Televisão: Quando a vontade de aparecer se junta ao desespero por ser visto
Porque é que as estações televisivas, tão precipitadas para se autodenominarem como líderes de audiência, têm tão pouco pudor em ter como convidado o mesmo líder político, dia sim, dia sim? Vem de duas vontades que se juntam: a necessidade de Ventura ter tempo de antena e o desespero sem fim das televisões em atingirem os números de audiência para convencer uns patrocinadores mais desatentos a lá enterrarem mais uns milhares de euros em publicidade.
É um facto inegável: André Ventura é polémico. Quando aparece, as atenções viram-se para ele, seja por detratores prontos a silvá-lo, ou apoiantes que o querem aplaudir.
As televisões colocaram-se numa posição de fragilidade e, como a primeira coisa a cair é a ética, não se importam de desequilibrar o espaço mediático político e dar uma exposição exacerbada a um líder partidário.
Há quem diga: “ah, este Ventura só quer aparecer”. É verdade, mas… quem é que o condena por isso? Encontrou um espaço no sistema onde consegue disparar as suas ideias – mais ou menos mirabolantes – a um grande leque de espetadores. Viu uma oportunidade e agarrou-a.
Quem tem de colocar a mão na consciência são os diretores de informação, que se deixam ir pela polémica por umas visualizações fáceis, que nem um barco à roda que, de tempos em tempos, lá aponta para o destino sem querer, qual relógio avariado.
O Conservadorismo ganha território na televisão
Além da assídua presença de André Ventura na televisão, os canais de notícias deram uma guinada para o conservadorismo, que vai sendo mais evidente com o passar dos dias.
Desde as últimas eleições legislativas que os comentadores de direita e, especialmente, da ala conservadora penetraram nos painéis de comentariado: Teresa Nogueira Pinto aparece na SIC Notícias, Rita Matias tem um painel no NOW e o Nascer do SOL criou um podcast com as Mulheres Conservadoras, o movimento recém-criado.
Aos poucos, os opinion makers seguem ao sabor dos resultados eleitorais, nem sempre com o filtro do conteúdo ligado.
Cercados ficam os analistas moderados. Primeiro atacados pelo wokismo que contaminou os espaços de opinião e, agora, pela onda conservadora, que ofusca a sensatez com a polarização, mas agora do outro lado do espectro político.

